O BURACO

03:00:00 | 2 Comments

Santa Fé é uma cidadezinha pequena, que não tem hospital, só posto de saúde. Quando alguém fica seriamente doente tem que ser levado de ambulância para Marilândia que é maior e tem dois hospitais e tudo o mais que uma cidade precisa ter.
Eu era funcionária da prefeitura de Santa Fé e não sei se pela minha competência ou disponibilidade, sempre me mudavam de função: biblioteca, escola ou na própria prefeitura. Numa dessas mudanças eu estava trabalhando na biblioteca da escola primária, quando aconteceu o que vou contar agora.
Estava na hora do recreio e as crianças brincavam no pátio, enquanto as professoras tomavam lanche e conversavam na sala dos professores. Adélia, a professora da segunda série tomava refrigerante de lata e sabe-se lá por que, colocou o dedo indicador no buraco. Quando ela tentou tirar não conseguiu, seu dedo ficou entalado. Insistiu e como não saía, mostrou para as outras professoras que tentaram ajudá-la a tirar. Puxavam a lata, torciam o dedo e nada. Adélia estava assustada e constrangida e as professoras perguntavam por que ela colocou o dedo no buraco da lata. Sem conseguir tirar o dedo sugeriram avisar a diretora. Adélia não deixou. Foram para o pátio, pois a sala dos professores começou ficar muito abafada com a agitação. Vieram as serventes e também tentavam ajudar não sem antes perguntar por que a professora tinha enfiado o dedo no buraco da lata. Como não conseguiram tirar, as serventes ficaram por lá comentando casos parecidos que tinham acabado mal, dando palpites, lamentando ser o dedo da mão direita. Uma dizia que não era nada bom o refrigerante estar gelado, outra dizia que ainda bem que estava gelado. Com estes comentários, Adélia ficava ainda mais assustada, principalmente por seu dedo estar vermelho e começando inchar, e o refrigerante esquentando. Terminou o recreio e as professoras precisavam voltar para a sala de aula, os alunos já estavam estranhando a demora e estavam se aproximando, para desespero de Adélia que não queria que as crianças a vissem nesta situação embaraçosa. Eu tentei ficar invisível, pois não queria substituir a professora, queria ver a solução do problema. Mesmo contra a vontade de Adélia chamaram a diretora. A primeira coisa que a diretora perguntou, foi por que a professora colocou o dedo no buraco da lata. Adélia já nem ficava mais envergonhada, estava apavorada. A diretora foi posta a par das tentativas fracassadas e sabia que seria ela quem tinha que resolver. Primeiro mandou juntar os alunos da professora Adélia com os de outra classe, depois mandou as serventes cuidarem das suas obrigações e me mandou chamar seu João, o faz tudo da escola. Seu João deu uma olhada, coçou a cabeça e perguntou por que a professora tinha colocado o dedo no buraco da lata. Adélia nem se preocupou em responder. Então ele saiu muito decidido e voltou com uma tesoura de cortar lata. A tesoura estava um pouco enferrujada e seu João a abria e fechava para desemperrar. Quando Adélia viu aquela enorme e enferrujada tesoura na mão do seu João, começou a chorar e correu para o banheiro e se trancou. Aborrecida a diretora dispensou o seu João, que saiu sem entender o motivo do choro da professora. Então a diretora ligou para prefeitura e pediu uma ambulância para levar a professora para o hospital de Marilândia. Só depois de saber que viria uma ambulância a professora saiu do banheiro. Claro que eu fui designada a acompanhar a professora. Toda hora vinha alguém pra saber se tinha desentalado o dedo da Adélia: professora, servente ou mesmo algum aluno que pedia pra ir ao banheiro e dava uma escapadinha pra espiar.
Finalmente chegou a ambulância e os vizinhos da escola vieram saber se tinha acontecido algum acidente com uma criança. A servente contou que a professora Adélia tinha entalado o dedo no buraco da lata. Envergonhada com o ajuntamento de gente em volta da ambulância, a professora embrulhou a mão em uma toalha, mas não escapou da curiosidade do motorista: ele também queria saber por que a professora tinha colocado o dedo no buraco da lata. Nos cinqüenta quilômetros que separavam as duas cidades, a professora não falou nada, estava muito nervosa, talvez lembrando as histórias que as serventes contaram, ou por estar sentindo dor. Em compensação o motorista não fechou a boca um só instante, se deliciando em contar suas aventuras como motorista de ambulância. Chegando em Marilandia ele decidiu pelo hospital mais próximo e mais lotado. Quando a ambulância estacionou, vieram os curiosos esperando abrir a porta de trás pra ver alguém ensangüentado, mas se decepcionaram por ver a professora com a mão embrulhada na toalha e nenhum sangue. Entramos ràpidamente no hospital e o mais discretamente possível contamos o que tinha acontecido. A atendente quis ver pra decidir qual especialista encaminhar. Viu e ficou sem saber. Chamou uma colega e descreveu o caso, a colega quis ver também e ficou sem saber se era caso de ortopedista, clínico ou cirurgião. Decidiram chamar um superior pra decidir. A professora que tinha ficado mais tranqüila quando chegamos ao hospital, voltou a ficar preocupada. O superior das atendentes chegou, ficou sabendo do caso, quis ver e falou que era melhor ir para o outro hospital. Eles não estavam equipados para este tipo de emergência. Antes que nós saíssemos para o outro hospital, ele perguntou por que a professora tinha colocado o dedo no buraco da lata. O motorista estava adorando tudo aquilo, já imaginando contar mais esta aventura nas próximas viagens. Fomos para o outro hospital, rezando para que ele estivesse equipado para este tipo de emergência. Sem dúvida era um hospital de melhor aparência, maior que o outro, e as ambulâncias estacionavam numa área restrita, longe dos curiosos. Para nossa surpresa já estavam nos aguardando e sabendo do que se tratava. A professora foi levada de maca enquanto eu preenchia os papéis. Depois de terminada as formalidades eu fui levada para onde estava a professora. Era o centro cirúrgico. Adélia estava aterrorizada e eu comecei a ficar preocupada também. Estava difícil tirar o dedo da lata, mas a mim parecia que o caso não era de cirurgia. A sala era muito limpa, cheia de aparelhos, enfermeiras silenciosas, preparando os instrumentos, seringas. Um ritual digno de um transplante de coração. Então entrou o médico. E que médico! Adélia até deu uma animada. Ele era alto, moreno, com um avental tão branco e tão bem passado que nunca tínhamos visto igual em Santa Fé. Nem sabíamos que poderia existir um avental tão imaculado assim. O médico além de alto, moreno, e usar um avental muito branco e muito bem passado, era lindo. Muito mais lindo que qualquer médico de cinema. Fiquei frustrada por não ser eu quem estava com o dedo entalado. Então ele sorriu pra Adélia, perguntou se ela estava sentindo dor. Ela nem sabia o que responder. Não sabia se estava sentindo dor. Ele habituado com a reação que causava nas pessoas não estranhou a atitude da professora. Ele pediu licença pra medir a sua pressão, claro que estava alta! O médico falou que era natural nestes casos. Que casos? A sua presença? Pediu pra enfermeira trazer um remédio pra acalmá-la. A enfermeira também estava habituada com a reação das pacientes. Trouxe o remédio. Só então o médico pediu pra ver a mão da Adélia. Muito sério, examinou, apertou aqui e ali. Pediu licença pra medir a pressão novamente. Disse que tinha baixado. Será? A professora nem se lembrava do dedo entalado, parecia que estava hipnotizada. Então ele sentou numa banqueta perto da maca e perguntou se ela estava preparada pra se livrar da lata. A professora disse que estava. Com um sorriso de derreter corações ele prometeu que não ia doer nada, que nem ia precisar de anestesia. Perguntou se ela confiava nele. Claro que ela confiava. Ele falou que ia precisar de uma ajudinha. Foi até o telefone e pediu pra alguém vir e trazer alguma coisa que ele falou em código. Enquanto não chegava a ajudinha ele sentou na banqueta novamente e começou conversar com a professora sobre o trabalho dela, a cidade, a política, o tempo. Adélia não cabia em si. Infelizmente a ajudinha chegou rápidamente, pra atrapalhar a conversa. Era um funcionário não médico, com um cinto de utilidades e uma maleta de ferramentas. Adélia não entendeu que era aquela pessoa e não o médico quem iria tirar a lata do dedo dela. Pensou que ele tinha vindo consertar alguma coisa, até ele abrir a maleta e tirar uma tesoura igual a do seu João, mas sem a ferrugem. Ela não poderia correr para o banheiro, chorando. Não na frente deste médico. Olhou para o médico assustada, e ele com aquele sorriso hipnotizador cobrou a confiança que ela havia prometido. Ela não poderia desapontá-lo e entregou sua mão para o faz tudo do hospital, enquanto o médico segurava a sua outra mão, para dar segurança. Ela queria que o procedimento durasse pelo menos umas três horas, mas durou apenas um minuto. Um corte na lateral perto da tampa da lata e outro corte na tampa até o buraco. Uma alargadinha no buraco e pronto, o dedo ficou livre. Um pouco inchado, mas ileso. Adélia fingiu estar aliviada e sorriu para o médico agradecida. Elegantemente ele falou que o mérito era do Sr Horácio (o faz tudo). Adélia agradeceu ao Sr Horácio que guardou a ferramenta na maleta e foi embora. Adélia também teria que ir. Tinha terminado tão rápido! O médico soltou a mão dela e elogiou a sua coragem. Ela ainda perguntou se teria que tomar algum antibiótico, só pra ficar mais tempo com o médico. Muito gentilmente ele falou que não precisava, despediu-se dela e quando chegou à porta, parou indeciso. O coração da Adélia deu um sobressalto: será que ele ia pedir o telefone dela? Ela teria que falar que era casada. Que situação! O médico olhou para ela e perguntou: afinal, por que você colocou o dedo no buraco da lata?

2 comentários:

michele disse...

Não me lembrava da história toda... mas isso não é novidade!
Eu sei porque ela colocou o dedo no buraco da lata porque eu também já coloquei o dedo no buraco, no banco do ponto de ônibus huaahauha Coloquei todos, mas só um ficou preso, mas não tive a sorte da Adélia.....
Adorei mãe vc estar escrevendo aqui pra um monte de gente poder ler suas histórias divertidas e pra eu não esquecer mais ou, se esquecer, poder ler de novo!
Boa sorte!
bjos
Mi

Andrea disse...

Quero colocar o dedo na lata para conhecer este médico.

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