Já fui a muitos velórios e todos são praticamente iguais: Primeiro, o choque ou alívio, dependendo da causa da morte. Depois a parte prática: A escolha do caixão, decidir onde vai ser o velório e o enterro. Também é preciso avisar amigos e parentes. Doação de órgãos nem se cogitam.

Geralmente a pessoa que vai comprar o caixão é a menos indicada para escolher. Com o pretexto que depois de morta a pessoa não precisa de mais nada, que está sofrendo muito com a perda, para ficar se preocupando com bobagens, como luxo e aparências e devido ao alto custo do caixão e acessórios, escolhe-se qualquer coisa entre o mais barato e o mais ou menos. As pessoas encarregadas de comunicar o falecimento, despreparadas, muitas vezes esquecem-se de avisar alguns, avisam duas ou três vezes a mesma pessoa.

Para se marcar a hora do enterro ou cremação, precisa se levar em conta o tempo que demoram em chegar os parentes que moram em outras cidades ou estados. E a pessoa que está cuidando desta parte, como eu falei, não é a mais indicada, não se preocupa com estes detalhes e transforma a chegada ao velório numa verdadeira gincana ou, dependendo do estado das ruas num rally.

Decidido o local do velório, para lá se dirigem os amigos e parentes. No começo é aquela choradeira, contam os detalhes mórbidos da coisa para as pessoas que querem saber como tudo aconteceu. Mais calmos começam a relembrar como era a pessoa em vida; é o momento da ternura, de alguns sorrisos. Os defeitos e falhas de caráter são propositadamente esquecidos, ou quando muito, usam-se eufemismos para mencionar estas características. Esta é a primeira fase do velório.

Na segunda fase, os presentes começam reparar uns nos outros: Como a Fulana está gorda, como Sicrana está velha, acabada! Será que Beltrano vem? Uns dizem, claro que sim, outros, claro que não, fazem até aposta. Alguém nota a falta de algumas pessoas que deveriam ter vindo. Será que foram avisadas? Ninguém tem certeza, afinal é um momento de dor, uma situação traumatizante. Neste estado ninguém é capaz de tomar todas as providencias. Já é madrugada então é melhor esperar amanhecer para telefonar, para que possam pelo menos comparecer ao enterro.

É nesta fase que os presentes falam de suas próprias doenças, suas cirurgias, bem ou mal sucedidas. Tomam decisão de parar de fumar, praticar exercício, se alimentar direito. O assunto vai se acabando, o sono chegando, é preciso andar um pouco pra despertar. Vão dar mais uma olhada no(a) morto(a). Mais conformados, reparam primeiro na aparência da pessoa, depois no que está vestindo, nas flores, no caixão, na coroa, no castiçal, etc. e vem a pergunta fatal: Quem escolheu o caixão? Se for muito simples, criticam dizendo que é sovinice, se é luxuoso, dizem que estão querendo compensar o que não foi feito em vida para a pessoa.

Madrugada em curso, todos com fome, mas sem coragem de comer, pois o lugar é desagradável e o bar é péssimo.
Começam a chegar os parentes de longe. A choradeira recomeça, os detalhes dos últimos momentos são contados novamente, a hora da ternura e a reprise da segunda fase.

Amanhece o dia. Quem pode vai para casa tomar banho, se vestir para o enterro e tomar café.
É de manhã que costumam vir para o velório, as pessoas que não têm parentesco, mas tem amizade ou algum tipo de relacionamento com o(a) morto(a) ou seus familiares. Em geral não demoram muito, pois não encontram ninguém conhecido, pelos motivos acima. O jeito é assinar o livro e ir embora.

Aproxima-se a hora do enterro e os parentes de muito longe ainda não chegaram. É a luta contra o tempo. Às vezes é preciso subornar os coveiros para adiar um pouco o enterro, para dar tempo de chegarem os parentes. Isso quando o enterro é no mesmo lugar que o velório. Se não for, os parentes em trânsito, não sabem se vão para o velório ou direto para o cemitério, muitas vezes se perdendo pelo caminho por não conhecerem direito a cidade.
Como é inevitável, enterra-se o(a) morto(a) e vão para a casa fazer a partilha.

Por causa disso tudo que eu estou organizando o meu velório e aconselho que você faça o mesmo. Não me venha dizer oh! Que horror! Que você não se importa, que depois de morto tanto faz, porque eu não acredito. Tenho certeza que você ficou assistindo pela televisão o velório do Ayrton Senna, da Lady Di, do Felinni. Você se importa sim, só não sabia que era possível.

Meu velório ainda não está todo planejado. A cada dia acrescento alguma coisa, mudo outra, afinal tenho muito tempo.
Meu caixão quero de madeira laqueada, falta escolher a cor. Por dentro quero que seja acolchoado e forrado de veludo ou cetim vinho. Farei duas roupas, uma de inverno e outra de verão, mas terá que ser em tom claro para contrastar com a cor do forro do caixão.

Para o velório quero música o tempo todo, selecionadas é claro. Em algum momento será música ao vivo. Estou pensando no Edson Cordeiro se estiver livre no dia. É preciso definir uma segunda e terceira opções.

Estou pesquisando alguns lugares onde se dará o evento. Sugeriram-me o pequeno plenário do Ibirapuera que cabem cinco mil pessoas; achei um pouco grande, pode dar problema na acústica. O lugar escolhido deverá ter estacionamento. Tenho que me decidir entre manobristas e serviço de ônibus saindo de várias partes da cidade, como fazem na época da Fenit e Couro Moda. Talvez tenha que ter os dois serviços. Também é preciso colocar faixas pela cidade, indicando o local, como nos dias de corrida em Interlagos.

Para a decoração não poderá ser nada menos que orquídeas de todas as cores e variedades.

Quero um serviço de Buffet que será servido em uma sala à parte. O cardápio ainda não escolhi, mas com certeza não terá coxinha ou pastel. O cheiro de fritura é insuportável.

O local deverá ter vestiário, para que as pessoas possam se recompor para o enterro.
Quero um telão passando os melhores momentos da minha vida.

O discurso de encerramento estava pensando no Cid Moreira, mas acho que ele morre antes de mim. Quem sabe o Tony Ramos...

Tenho ainda que organizar a lista de convidados. Sim, porque não quero que ninguém seja esquecido, mas também não quero nenhuma pessoa indesejável, que vá só para ter certeza que eu morri, ou para candidatar-se à minha vaga. Por via das dúvidas, vou fazer duas listas: uma para as pessoas convidadas e outra para as pessoas proibidas de comparecerem. Na lista de pessoas proibidas está o Augusto, meu sobrinho. Ele não é uma pessoa indesejável, mas ele tem um talento natural para fazer as pessoas rirem, e não quero meus convidados às gargalhadas no meu velório.

Vou deixar uma pessoa de confiança encarregada das últimas providencias e mais três para supervisionar para que não hajam falhas.

É lógico que para que tudo saia perfeito, é preciso deixar tudo combinado com antecedência. Por exemplo: O Buffet escolhido tem que estar ciente desde já do tipo de evento, pois não tem data para acontecer. O mesmo se dá com a floricultura, os músicos, o serviço de ônibus e manobristas.

Para entrega dos convites, nem pensar no correio, não dá tempo, o melhor é contratar motoboy.

Vou doar meus órgãos e quero ser cremada, além do que a sala de cerimônias do crematório e muito bonita, parece um teatro de arena.

Então é torcer para que o fato não ocorra durante a Copa, Olimpíadas, ou Eleições, por motivos óbvios.

Se você quiser aproveitar a minha idéia, esteja à vontade. O seu evento pode ter a sua cara. Você pode contratar o Tiririca talvez, para o discurso pode contratar o Asa Branca, pode ter até Ôla. Você é quem decide, ou deixa por conta de algum parente e corre o risco de ser velado num lugar cheio de gatos, que de madrugada dão miados horríveis.
Quando você está solteira é impressionante o interesse dos amigos e parentes para te arranjar um namorado. Todo mundo conhece alguém ou tem um primo, tio, cunhado que acham que é sob medida pra você.

Quando minha amiga Irene falou que ia me apresentar o seu primo, eu pensei: ela é mais que amiga, quer nos tornar parentes. Quando ela me falou das qualidades, da situação financeira eu o imaginei um príncipe encantado. Quando eu o conheci, percebi que ela era mais amiga do seu primo do que minha.

Eu o conheci em uma festa, onde todas as pessoas estavam bem vestidas e perfumadas. Ele se destacava na multidão; a roupa que ele estava vestido parecia ter sido comprada no saldão de algum brechó. O corte do cabelo eu não sei em que época foi moda. Me recusei a olhar o sapato. Para piorar, minha “amiga” provavelmente já tinha falado sobre mim, pois ele agiu como se tivesse tudo acertado entre nós. Posou de meu par na festa, espantando possíveis interessados. Conversando com ele, já que não havia outro jeito, fui confrontando as qualidades que Irene falou que ele tinha com o que eu podia perceber. Ela havia falado que Henrique era uma pessoa sem afetação ou modismo. Eu percebi que ele era desleixado e antiquado. Ela falou que ele era econômico, eu descobri que era sovina. Fiquei sabendo que ele tinha o hábito de se hospedar com os parentes. Era por isso que faziam tanta questão de casá-lo. Uma mulher desesperada veria nele um diamante bruto, pronto pra ser lapidado. Não era o meu caso, mas infelizmente parecia que ele estava nesta situação, pois grudou em mim de tal forma, que estava ficando difícil me livrar dele. Principalmente porque eu não queria magoar minha amiga.

Não pensem que ele me mandava flores ou e mail. Não mandava flores porque romantismo não era a sua principal característica e custa caro. Não mandava e mail, pois achava que computador era um modismo sem propósito, que logo ia passar, então não valia a pena se interessar.
Henrique aparecia com freqüência na frente da empresa que eu trabalhava, com suas roupas despojadas. Além de me matar de vergonha diante dos meus colegas, não me convidava para jantar nem ir ao cinema, propunha me levar pra casa, tentando dar um ar romântico pra coisa. Apesar de cansada e com fome eu sempre inventava compras no shopping, pensando que isso o espantaria por medo de se sentir obrigado a pagar as compras. Não adiantava, pois ele ia e ainda dava palpite nas minhas compras.

Irene sempre me ligava pra saber a quantas andava o que ela chamava de romance, e como eu falava que não havia romance ela não acreditava e ainda ficava magoada por eu não fazê-la minha confidente

Antecipei minhas férias e viajei. Como não era temporada, só tinha casais aposentados ou família com criança pequena. Um tédio. Quando retornei, lá estava ele com as mesmas roupas, e a mesma conversa chata de sempre. Mudei a hora de sair do trabalho e o número do meu telefone, mas ele não demorou descobrir. Resolvi mandar currículo para outras empresas na esperança de me livrar da sua presença incômoda.

Meus colegas não me convidavam mais pra sair depois do trabalho e nos fim de semanas por me julgarem comprometida. Quando eu os convidava, sempre tinha algum engraçadinho que perguntava se eu tinha brigado com o “tigrão”. Não adiantava dizer que eu não namorava tal pessoa, todos debochavam, pois o viam sempre me esperando e telefonava todos os dias. Diziam que não fazia sentido eu negar, que eu deveria deixar de ser ciumenta e convidá-lo pra sair com a turma.

À noite eu custava dormir, procurando uma forma de me livrar do Henrique. Pensei em fazer intercâmbio, mas a hipótese de morar em um país de língua estrangeira e costumes estranhos me desanimou. Achei que se eu mudasse de casa ficaria livre dele, seria a solução ideal. Assim que mudasse de emprego, mudaria de casa. Dormi com esta resolução e sonhei que estava me mudando para uma enorme casa com muros altos e segurança armada. Os carregadores estavam tirando meus móveis do caminhão. Um dos carregadores me perguntou: onde eu ponho isso? “Isso” era o Henrique, com seu sorriso e sua roupa fora de moda. Acordei suando e apavorada. Mais um plano que não daria certo.

Já que meus amigos não podiam me ajudar resolvi recorrer aos conselhos da minha mãe, apesar de não ter mais idade de colo. Contei tudo: como o conheci, como ele era e como estava tornando minha vida impossível. Minha mãe com a “sabedoria” das mães, falou que eu estava sendo muito exigente, que devia estar exagerando ao falar dos defeitos do Henrique. Falou também que quando ela conheceu o meu pai, ele não era a maravilha que é hoje, (não consigo imaginá-lo pior), que muitas vezes cabe a mulher a tarefa de moldar o homem e fazê-lo ao seu gosto. Me senti órfã.

Continuei minha vida, tentando driblar o Henrique, aguardando um chamado de outra empresa e escolhendo um novo lugar para morar, mas tudo sem sucesso.
Uma idéia começou a tomar forma na minha cabeça: a do diamante bruto! Reconheço que era uma solução desesperada, mas era como eu me sentia em relação a minha atual situação. Calmamente tracei o plano completo. Se não desse certo, seria apenas mais um que falhou.
Comecei por descobrir a data do aniversário do Henrique. Não economizei no presente: Comprei roupas de boa qualidade e moderna para presenteá-lo. Também comprei sapatos. Marquei hora no cabeleireiro e combinei o tipo de corte que ele deveria sugerir para o Henrique. Teria que inventar uma desculpa para levá-lo. Tirei uma tarde livre e contei pra ele. Claro que ele estava me esperando e me acompanhou sem perguntar aonde eu iria. Não estranhou eu ir ao cabeleireiro e se dispôs a esperar. Falei pra ele aproveitar e cortar o cabelo para não se aborrecer de me esperar. Eu pagaria. Nem foi preciso insistir. Depois do cabelo cortado ficou encantado com a sua aparência, disse que estava parecendo um garoto. O cabeleireiro também não economizou elogios. Não era pra tanto, mas confesso que ficou melhor do que eu esperava. Quando saímos do salão, ele estava tão feliz que até estava menos feio, ou mais bonito. Achei melhor dar a roupa e o sapato no dia seguinte. Era melhor aproveitar a felicidade da sua nova aparência aos poucos. Estava sendo muito divertido!

No dia seguinte, dia do seu aniversário, como sempre ele estava me esperando. Entreguei os presentes. Ele ficou numa felicidade incrível, pela lembrança da data e pelos presentes. Adorou as roupas e me chamou de maluca por gastar tanto com ele, pois era óbvio que eram roupas caras. Aproveitei para falar que quando uma roupa era de boa qualidade, ficava com melhor aparência por mais tempo e durava muito mais, portanto não poderia ser considerada cara, valia o que custava. Ele aceitou muito bem a justificativa, talvez por não ser ele quem pagou. Neste dia ele estava apressado pra ir embora, percebi que era para experimentar as roupas e o sapato novos. No dia seguinte ele me ligou para agradecer e falar que tinham ficado ótimas e me convidou pra jantar. Quase não acreditei, depois fiquei preocupada com o lugar onde ele estava pretendendo me levar. Talvez uma pastelaria ou lanchonete. Não era. Me levou a um restaurante decente, será que ele pretendia que eu pagasse? A brincadeira estava perdendo a graça. Para minha surpresa pagou sem reclamar. Uma vitória que eu atribuí aos presentes. Outra coisa que me surpreendeu, foi que as mulheres no restaurante e nas ruas, olhavam pra ele, eu diria, com admiração. E ele estava percebendo e gostando! Achei um tremendo desaforo, pois a idéia do corte de cabelo foi minha, a roupa fui eu quem escolheu.

Nos próximos dias ele estava usando suas antigas roupas e parece que não estava confortável. Falou que achava que estava engordando, pois suas roupas estavam apertando, incomodando. Sugeri de brincadeira que entrasse numa academia de ginástica. A princípio me olhou aborrecido. Ele estava esperando elogio pelo seu físico, ou queria que eu comprasse mais roupas? Depois de pensar um pouco, falou que não era má idéia, pois estava precisando de uma atividade física.

A próxima vez que o vi, já tinha se matriculado em uma academia e me convidou para ir com ele comprar roupas esportivas e tênis. Entendeu direitinho a lição sobre roupas de boa qualidade. Acho que até exagerou, pois eu achava que desistiria logo desta nova atividade. Ficou uns dias sem aparecer, deveria estar todo dolorido. Quando veio, estava cheio de idéias novas. Um verdadeiro senhor saúde. Era um tal de alimentos energéticos, catabolizantes, massa muscular, bebida isotônica, bíceps, tríceps. Felizmente estava com roupas normais, pois nem posso imaginar se ele viesse de camiseta regata, meião e tênis. Dava pra perceber que ele estava dolorido, mas não deu o braço a torcer. Com esta nova atividade ele aparecia com menos freqüência e eu podia tocar minha vida como antes, mas eu já tinha perdido o hábito das coisas que eu fazia antes de conhecer o Henrique, que fiquei meio sem ter o que fazer.

Chegou a época de eu tirar férias e planejei ir para o litoral. Contei pro Henrique e ele achou uma ótima idéia e se convidou pra ir também. Como seria inútil discordar, ajudei-o a comprar roupas adequadas, uma atividade que ele já fazia com prazer. Chegando ao litoral houve discordância sobre a quantidade de estrelas do hotel, pois a mesma teoria das roupas não se aplicava. Então sugeri ficarmos em hotéis separados e para minha total surpresa ele concordou. Percebi que eu precisava ter bons argumentos para cada situação e mais alguns de emergência.

A primeira noite no hotel eu dormi muito mal, acho que estranhei a cama. Imaginei como teria sido a noite do Henrique num hotel com menos estrelas. Acordei tarde, e depois do café fui dar uma volta na praia. Qual não foi minha surpresa ao ver o Henrique rodeado de pessoas, a maioria mulheres, e ele estava falando no seu novo assunto predileto: fisicultura. Todos pareciam muito interessados, as mulheres interessadas demais. Como o assunto não me interessava, fui passear sozinha. Voltei para o almoço e o encontrei bem disposto e muito satisfeito com as novas amizades. Ótimo, assim ele me deixaria em paz. À tarde fui à praia, o Henrique também foi e não demorou aparecerem seus novos amigos. Cervejinha pra cá, camarãozinho pra lá, muito papo furado e muito assanhamento das suas novas amigas. E ele achando tudo muito natural. O cúmulo foi a certa altura da conversa, alguém perguntar se eu era prima ou irmã dele. Fiquei sem saber o que responder e ele teve o desplante de dizer que éramos amigos. Amigos? Essa foi demais! Enfim eu estava livre pra arranjar namorado. Deixei o Henrique pra lá e comecei a olhar á minha volta para ver se tinha alguém que valesse a pena. Não existe lugar melhor pra arrumar namorado do que na praia, mas esta temporada estava fraca. Deve ser por isso que o Henrique estava fazendo tanto sucesso. Resolvi levantar cedo para ver a chegada dos pescadores e lá estava o Henrique correndo na praia com um bando de mulheres com a língua de fora, correndo atrás dele e elogiando sua boa forma. E eu não vi nem um peixe interessante.

Decidi pelas diversões noturnas. Com certeza o senhor saúde não estaria lá. Estava enganada. Suas amiguinhas o convenceram que com sua boa forma física, só uma noitada não o prejudicaria. Não conheci nem um boêmio que valesse a pena. No dia seguinte o Henrique perguntou se eu o ensinaria a dançar, pois ele estava perdendo a oportunidade de se divertir dançando. Recomendei uma escola de dança. Tive vontade de sugerir balé.

A cada dia o Henrique mais se enturmava, se bronzeava, se divertia e até achou quem o ensinasse a dançar. Ao contrário, eu me aborrecia, me chateava, não arrumei namorado e fui muito picada por mosquitos e pernilongos. Terminei as férias mais estressada do que quando estava trabalhando.
De volta a minha casa, recebi finalmente uma proposta para um novo emprego. Fui à entrevista, mas não me interessei. O salário era um pouco maior, mas até eu me adaptar, fazer novas amizades e talvez enfrentar um chefe desagradável, não valia a pena trocar de emprego. Melhor esperar uma proposta melhor.
O Henrique com seu novo visual, seu horizonte ampliado, abriu uma loja de produtos naturais e vitaminas, para os adeptos de culto ao corpo. Claro que ele me pediu para ajudá-lo a escolher o local e fazer a decoração da loja. O negócio foi um sucesso! A loja é freqüentada por homens musculosos e mulheres de barriga de fora e collant cavado.

Hoje ele tem uma cadeia de lojas e continua muito assediado. E é lógico que eu sou a mulher que ele escolheu pra gerente. Sempre que alguém pergunta como tudo começou, ele fala que deve tudo a uma grande amiga, que o ensinou desde a se vestir até a investir em si mesmo. Eu continuo a esperar o meu príncipe encantado, nem que seja com anabolizante.
Bom mesmo era no tempo da minha mãe, que se podia lapidar um diamante bruto e desfrutar do seu brilho.


Entre as coisas que marido não gosta quando está em casa, é que a mulher fique de papo com as amigas ao telefone e muito menos que as amigas venham visitá-la. Também odeiam que a mulher saia para cuidar da beleza, fazer compras etc. Meu marido não é exceção. Ele quer a mulher todinha pra si. Se vocês estão pensando em namoro ou passeios, enganam-se. Não é assim que Ricardo quer passar suas férias.

Nos três primeiros dias de suas férias Ricardo levantou tarde, passou o dia de pijama, barba sem fazer. Sem horário pra nada, “curtindo” o descanso.
O que vamos ter para o almoço? Era a pergunta de todos os dias. Como ele tinha levantado tarde, não tinha se exercitado, lógico que estava sem fome. Claro que não achava a comida tão boa, mas não tinha importância, eu não estava participando de nenhum concurso de culinária; apenas saindo da minha rotina diária, e as férias eram do Ricardo.

Sabe aqueles reparos sem muita importância que você deixa piorar, para chamar o profissional competente? Em casa tinha alguns. No quarto dia de férias, Ricardo resolveu ele mesmo consertar, com a desculpa de economizar. Começou pela torneira da pia que não estava fechando direito. Todo encanador tem as ferramentas adequadas e geralmente não precisa de ajudante. Ricardo me nomeou sua “assessora” e minha primeira obrigação era trazer a caixa de ferramentas. Não sei por que a caixa de ferramentas fica sempre em um lugar inacessível e as ferramentas fora dela. Depois de localizar as ferramentas como era minha obrigação no novo cargo, fui fechar o registro. Ricardo todo empolgado começou desatarraxar a torneira. Não sei se a torneira era de má qualidade ou se ele não era a pessoa mais indicada pra este serviço, pois o cano quebrou dentro da parede e esguichou água em nós dois. Ele não tinha esgotado a água do cano! Já tendo piorado o suficiente a solução era chamar o encanador. Como era de se esperar ele estava ocupado e só poderia vir à tarde. Como fazer o almoço sem água? Come-se qualquer coisa, disse o Ricardo.

Lá pelas duas horas o encanador chegou, com ares de salvador da pátria e de mão na cintura perguntou como aquilo tinha acontecido. Sem graça o Ricardo falou que não sabia que era tão forte e que da próxima vez teria mais cuidado.

Para consertar um cano quebrado dentro da parede, tem que se quebrar a parede e ainda o encanador teve o desplante de perguntar se tínhamos azulejo de reserva. Nesta altura, acho que o Ricardo estava arrependido ou pelo menos deveria estar, mas falou que seria fácil encontrar azulejo igual. Com azulejo ou sem ele, a solução era quebrar a parede para consertar. Três horas da tarde o conserto estava pronto, a cozinha imunda e ainda não podia abrir o registro. Muito mais tarde a cozinha estava limpa, em ordem e com um remendo na parede. À noite todos estávamos morrendo de fome e o Ricardo comeu sem criticar o jantar, também não elogiou.

No dia seguinte ele não quis saber de serviço hidráulico, partiu para a parte elétrica. Decidiu consertar o chuveiro do banheiro de empregada. Eu tentei fazê-lo desistir dizendo que aquele banheiro não é muito usado, mas o Ricardo disse que é importante ter um chuveiro de reserva.
Como era minha obrigação de assessora, trouxe as ferramentas, fita isolante e desliguei a chave, mas tinha que ser a chave geral, nunca se sabe... Conclusão: sem rádio, sem televisão, microondas e o que é pior, sem vídeo game.. Justo no dia que as crianças tinham combinado de jogar aqui em casa. A Daniela até entendeu a importância de termos o chuveiro de empregada funcionando, apesar de não termos empregada, mas o Jr ficou furioso.

Muitos curtos depois o Ricardo desistiu sem entender porque o chuveiro teimava em não funcionar, afinal ele tinha feito tudo certo!
O eletricista não foi chamado, pois não piorou o suficiente, continuou sem funcionar. Apenas o banheiro e a lavanderia estavam sujos e alagados de tanto abrir e fechar o chuveiro para testar.

Mas isso serviu pra me ensinar a chamar as pessoas especializadas para fazer os reparos, antes de o Ricardo notar.

Depois destes fracassos eu pensei que o Ricardo ia aproveitar as férias, como normalmente as pessoas fazem: indo ao cinema, teatro, praia, ou mesmo em casa lendo um bom livro, mas a sua idéia de diversão era outra. Era descobrir por onde estava entrando água no carro. Para isso, nada melhor do que desmontar. Sabe como é, tirar a maçaneta, o forro da porta, os bancos, os tapetes, e tudo isso na frente da garagem do meu carro. Em conseqüência disso, fiquei impossibilitada de sair, mas me neguei assessorá-lo. Para minha sorte o telefone tocou e era uma amiga com mil novidades, minha tarde estava salva! Peguei um copo de refrigerante e me preparei para o papo, mas toda hora o Ricardo me interrompia para pedir uma coisa muito importante como um pano que não solta fiapos, fita crepe colorida, chave Phillips pequena, do tipo que os relojoeiros usam, deixando bem claro com o olhar que não estava gostando nada, nada que eu não estivesse à sua disposição.

Muito mais tarde eu fui ver se ele tinha terminado, para eu poder sair com o carro. Não tinha, e ainda fiquei com sentimento de culpa, pois o Ricardo falou que nunca viu ninguém gostar tanto de sair de carro.

Quando ele se deu por satisfeito com o seu carro, entrou dizendo que estava impecável! Então eu perguntei se ele tinha descoberto por onde estava entrando água e ele se mostrou surpreso, como se não soubesse do que eu estava falando, mas logo lembrou e falou que só saberia quando chovesse.

Um novo dia chegou e o Ricardo depois de ler o jornal falou: hoje eu vou dar um trato no seu carro. A minha reação o surpreendeu, pois ele me olhou assustado. Eu apenas falei: não vai mesmo! Timidamente ele tentou me convencer, comparando com o seu carro, mas eu estava irredutível. Até o sentimento de culpa desapareceu. Nesse dia ele ficou meio perdido sem nada pra fazer, até tentou ver televisão, mas não gostou da programação. Enquanto isso eu aproveitei pra ir ao supermercado, (pelo menos).

No oitavo dia ele começou se preocupar com o escritório: será que se lembraram de pagar a duplicata tal? Será que tinham telefonado para não sei quem? Achou melhor telefonar pra saber se estava fazendo falta e ficou decepcionado por descobrir que estavam se virando sem a sua presença. Ficou calado, pensando. De repente falou: que tal você arrumar as malas pra nós viajarmos? Sabe o que eu respondi? As malas já estão prontas.


Era uma vez uma princesa de um reino distante. Na verdade ela não era princesa, só tinha pose de princesa e o reino era de faz de conta.
Ela já estava na idade de casar, na verdade já estava passando da idade de casar, porque ninguém da realeza se interessou por ela. O Rei então resolveu aceitar um marido pobre, quer dizer, plebeu. Não só aceitou, como colocou um anúncio procurando um pretendente e sem nenhuma exigencia. Apareceram muitos candidatos. A fila era enorme, mas ela recusava a todos com todo tipo de desculpa. Um era alto demais, outro era muito baixo. Um era muito gordo, outro era magro demais. Um era muito branco, outro era moreno demais. Um tinha o cabelo muito liso, outro o cabelo era muito crespo.
O tempo ia passando, a princesa não decidia, a fila de candidatos não diminuia e o Rei se desesperava.
Foi então que ele entrou na fila: o pretendente.
Depois de muito tempo na fila, ele não tinha certeza de estar fazendo a coisa certa, afinal ele não conhecia a princesa, só a fama de ser muito exigente. Já estava para desistir, mas lembrou da ameaça de sua mãe antes dele sair de casa para procurar emprego: Se você não conseguir nada, pode pegar suas roupas e ir embora. Apesar de estar fazendo muito calor, ele se imaginava tiritando de frio embaixo de um viaduto. E neste reino nem tinha viaduto. Então ele decidiu, que se a princesa falasse que ele era muito alto, ele prometeria andar de joelhos. Se ela falasse que ele era muito baixo, ele prometeria andar de perna de pau; se ela falasse que ele era muito moreno, ele diria que tinha a fórmula do sabonete do Michael Jackson, se ela falasse que ele era muito branco, ele diria que era descendente de negros, e um solzinho já o deixaria moreno.
Todos os candidatos quando recusados, aceitavam sem reclamar e se retiravam. Chegou a vez do pretendente e ele pode observar a princesa. Ficou chocado com a sua feiura, mas lembrou do frio embaixo do viaduto. A princesa nem se dignou a olhar para ele e falou: este também não. O pretendente perguntou: por que, majestade? O que em mim a desagrada? Mas a sua voz saiu sem muita convicção.
A princesa ficou surpresa com a ousadia do pretendente e dignou-se a olhar para ele. Não viu nem um motivo para recusá-lo. Ele não era muito alto, nem muito baixo. Não era muito moreno, nem muito branco. Seu cabelo não era muito liso, nem muito crespo.
A medida que a princesa o observava, ia ficando encantada, e a medida que o pretendente a observava, começou achar que morar embaixo de um viaduto não era tão mal assim. Provavelmente não faria muito frio nos próximos invernos. A princesa falou com ele numa voz que ela pretendia ser doce e gentil, mas como ela não estava acostumada, a voz saiu esganiçada: Me fale quais são suas qualidades. O pretendente vendo a feiúra da princesa e ouvindo aquela voz , teve certeza que preferia morar embaixo do viaduto. Então ele respondeu: Eu ronco. A princesa que estava impressionadíssima, não se sabe se com a sua aparencia ou com a ousadia, perguntou fazendo biquinho: mais alguma qualidade? Depois disso o pretendente estava mais desesperado do que o Rei e fez a última tentativa: Eu não como comida feita por criados e exijo que minha roupa seja lavada por você. Fechou os olhos e esperou a reação da princesa.
Totalmente apaixonada ela falou: Eu o escolho! Guardas, não o deixem escapar.



Prezado Comandante



Quem escreve é uma mãe comum; não uma mãe superprotetora ou ansiosa. Apenas uma mãe preocupada com o bem estar do seu filho.É minha primeira vez como mãe de um filho que vai servir o exército, e tenho algumas dúvidas. Tenho ouvido falar horrores desta fase da vida de alguns rapazes. Não é este o caso.

A finalidade principal desta carta é facilitar as coisas para voces, pois ainda não conhecem o meu filho.

Vou começar falando da alimentação: No café da manhã ele prefere Sucrilhos com leite, ou mingau de farinha láctea com frutas. Eventualmente, Coca Cola com pizza de calabresa amanhecida. No almoço e jantar ele gosta de comer massas com bastante molho (sem carne). Nhoque ele prefere feito em casa, mas serve o congelado da C.A.C; Adora atum em conserva com bastante limão e geladinho. Bife ele gosta mal passado e totalmente sem gordura. Nem pensem em servir carne cozida, ele detesta e frango ele tem nojo. Estou mandando as receitas do nhoque e do pão caseiro. Qualquer dúvida, pode perguntar pra ele, pois ele é bom nisso também. Umas bolachinhas antes de dormir não seria nada mal.

Dizem que o exército é muito bom para ensinar disciplina e organização. Eu só espero que voces não sejam muito severos com ele, pois embora não pareça ele é muito sensível. Eu ouvi dizer que os oficiais superiores têm a mania de transmitir as ordens aos gritos. Com ele não precisa gritar. Ele ouve muido bem e não suporta grosserias ( apesar que as vezes ele fala um tanto autoritáriamente com seus irmãos menores). Quanto à organização, se voces não conseguirem bons resultados, não faz mal. Nós já estamos acostumados.

A respeito da cor da farda: verde Tartaruga Ninja ele não quer usar e também não gosta de calça justa. Ele costuma usar calça bem folgada e tênis. Ele usa tênis até em casamentos.

Se possível eu gostaria que ele ficasse longe das armas. Ele seria melhor aproveitado em atividades intelectuais. num computador ele faz misérias!

Quanto à personalidade, ele tem muito senso de humor (com o tempo voces vão perceber) Gosta de ler e fazer palavras cruzadas. Sobre horários, ele é mais ativo à tarde. Se puder vai ser melhor.

Se tudo correr direitinho com meu filho, eu prometo fazer propaganda e tentar desmistificar esta instituição, e voces verão como a procura para o alistamento vai aumentar.

Mamãe Comum









O BURACO
Era uma vez uma professora que entalou o dedo indicador em uma lata de refrigerante. Mesmo com ajuda das amigas não conseguiu desentalar e ficou muito preocupada. Foi preciso ir ao hospital para remover a lata do dedo, ou o dedo da lata.
Ela ficou feliz quando conseguiu desentalar o dedo, pois não teve sequelas . Já a lata, coitada, ficou destruída.

O BURACO

03:00:00 | 2 Comments

Santa Fé é uma cidadezinha pequena, que não tem hospital, só posto de saúde. Quando alguém fica seriamente doente tem que ser levado de ambulância para Marilândia que é maior e tem dois hospitais e tudo o mais que uma cidade precisa ter.
Eu era funcionária da prefeitura de Santa Fé e não sei se pela minha competência ou disponibilidade, sempre me mudavam de função: biblioteca, escola ou na própria prefeitura. Numa dessas mudanças eu estava trabalhando na biblioteca da escola primária, quando aconteceu o que vou contar agora.
Estava na hora do recreio e as crianças brincavam no pátio, enquanto as professoras tomavam lanche e conversavam na sala dos professores. Adélia, a professora da segunda série tomava refrigerante de lata e sabe-se lá por que, colocou o dedo indicador no buraco. Quando ela tentou tirar não conseguiu, seu dedo ficou entalado. Insistiu e como não saía, mostrou para as outras professoras que tentaram ajudá-la a tirar. Puxavam a lata, torciam o dedo e nada. Adélia estava assustada e constrangida e as professoras perguntavam por que ela colocou o dedo no buraco da lata. Sem conseguir tirar o dedo sugeriram avisar a diretora. Adélia não deixou. Foram para o pátio, pois a sala dos professores começou ficar muito abafada com a agitação. Vieram as serventes e também tentavam ajudar não sem antes perguntar por que a professora tinha enfiado o dedo no buraco da lata. Como não conseguiram tirar, as serventes ficaram por lá comentando casos parecidos que tinham acabado mal, dando palpites, lamentando ser o dedo da mão direita. Uma dizia que não era nada bom o refrigerante estar gelado, outra dizia que ainda bem que estava gelado. Com estes comentários, Adélia ficava ainda mais assustada, principalmente por seu dedo estar vermelho e começando inchar, e o refrigerante esquentando. Terminou o recreio e as professoras precisavam voltar para a sala de aula, os alunos já estavam estranhando a demora e estavam se aproximando, para desespero de Adélia que não queria que as crianças a vissem nesta situação embaraçosa. Eu tentei ficar invisível, pois não queria substituir a professora, queria ver a solução do problema. Mesmo contra a vontade de Adélia chamaram a diretora. A primeira coisa que a diretora perguntou, foi por que a professora colocou o dedo no buraco da lata. Adélia já nem ficava mais envergonhada, estava apavorada. A diretora foi posta a par das tentativas fracassadas e sabia que seria ela quem tinha que resolver. Primeiro mandou juntar os alunos da professora Adélia com os de outra classe, depois mandou as serventes cuidarem das suas obrigações e me mandou chamar seu João, o faz tudo da escola. Seu João deu uma olhada, coçou a cabeça e perguntou por que a professora tinha colocado o dedo no buraco da lata. Adélia nem se preocupou em responder. Então ele saiu muito decidido e voltou com uma tesoura de cortar lata. A tesoura estava um pouco enferrujada e seu João a abria e fechava para desemperrar. Quando Adélia viu aquela enorme e enferrujada tesoura na mão do seu João, começou a chorar e correu para o banheiro e se trancou. Aborrecida a diretora dispensou o seu João, que saiu sem entender o motivo do choro da professora. Então a diretora ligou para prefeitura e pediu uma ambulância para levar a professora para o hospital de Marilândia. Só depois de saber que viria uma ambulância a professora saiu do banheiro. Claro que eu fui designada a acompanhar a professora. Toda hora vinha alguém pra saber se tinha desentalado o dedo da Adélia: professora, servente ou mesmo algum aluno que pedia pra ir ao banheiro e dava uma escapadinha pra espiar.
Finalmente chegou a ambulância e os vizinhos da escola vieram saber se tinha acontecido algum acidente com uma criança. A servente contou que a professora Adélia tinha entalado o dedo no buraco da lata. Envergonhada com o ajuntamento de gente em volta da ambulância, a professora embrulhou a mão em uma toalha, mas não escapou da curiosidade do motorista: ele também queria saber por que a professora tinha colocado o dedo no buraco da lata. Nos cinqüenta quilômetros que separavam as duas cidades, a professora não falou nada, estava muito nervosa, talvez lembrando as histórias que as serventes contaram, ou por estar sentindo dor. Em compensação o motorista não fechou a boca um só instante, se deliciando em contar suas aventuras como motorista de ambulância. Chegando em Marilandia ele decidiu pelo hospital mais próximo e mais lotado. Quando a ambulância estacionou, vieram os curiosos esperando abrir a porta de trás pra ver alguém ensangüentado, mas se decepcionaram por ver a professora com a mão embrulhada na toalha e nenhum sangue. Entramos ràpidamente no hospital e o mais discretamente possível contamos o que tinha acontecido. A atendente quis ver pra decidir qual especialista encaminhar. Viu e ficou sem saber. Chamou uma colega e descreveu o caso, a colega quis ver também e ficou sem saber se era caso de ortopedista, clínico ou cirurgião. Decidiram chamar um superior pra decidir. A professora que tinha ficado mais tranqüila quando chegamos ao hospital, voltou a ficar preocupada. O superior das atendentes chegou, ficou sabendo do caso, quis ver e falou que era melhor ir para o outro hospital. Eles não estavam equipados para este tipo de emergência. Antes que nós saíssemos para o outro hospital, ele perguntou por que a professora tinha colocado o dedo no buraco da lata. O motorista estava adorando tudo aquilo, já imaginando contar mais esta aventura nas próximas viagens. Fomos para o outro hospital, rezando para que ele estivesse equipado para este tipo de emergência. Sem dúvida era um hospital de melhor aparência, maior que o outro, e as ambulâncias estacionavam numa área restrita, longe dos curiosos. Para nossa surpresa já estavam nos aguardando e sabendo do que se tratava. A professora foi levada de maca enquanto eu preenchia os papéis. Depois de terminada as formalidades eu fui levada para onde estava a professora. Era o centro cirúrgico. Adélia estava aterrorizada e eu comecei a ficar preocupada também. Estava difícil tirar o dedo da lata, mas a mim parecia que o caso não era de cirurgia. A sala era muito limpa, cheia de aparelhos, enfermeiras silenciosas, preparando os instrumentos, seringas. Um ritual digno de um transplante de coração. Então entrou o médico. E que médico! Adélia até deu uma animada. Ele era alto, moreno, com um avental tão branco e tão bem passado que nunca tínhamos visto igual em Santa Fé. Nem sabíamos que poderia existir um avental tão imaculado assim. O médico além de alto, moreno, e usar um avental muito branco e muito bem passado, era lindo. Muito mais lindo que qualquer médico de cinema. Fiquei frustrada por não ser eu quem estava com o dedo entalado. Então ele sorriu pra Adélia, perguntou se ela estava sentindo dor. Ela nem sabia o que responder. Não sabia se estava sentindo dor. Ele habituado com a reação que causava nas pessoas não estranhou a atitude da professora. Ele pediu licença pra medir a sua pressão, claro que estava alta! O médico falou que era natural nestes casos. Que casos? A sua presença? Pediu pra enfermeira trazer um remédio pra acalmá-la. A enfermeira também estava habituada com a reação das pacientes. Trouxe o remédio. Só então o médico pediu pra ver a mão da Adélia. Muito sério, examinou, apertou aqui e ali. Pediu licença pra medir a pressão novamente. Disse que tinha baixado. Será? A professora nem se lembrava do dedo entalado, parecia que estava hipnotizada. Então ele sentou numa banqueta perto da maca e perguntou se ela estava preparada pra se livrar da lata. A professora disse que estava. Com um sorriso de derreter corações ele prometeu que não ia doer nada, que nem ia precisar de anestesia. Perguntou se ela confiava nele. Claro que ela confiava. Ele falou que ia precisar de uma ajudinha. Foi até o telefone e pediu pra alguém vir e trazer alguma coisa que ele falou em código. Enquanto não chegava a ajudinha ele sentou na banqueta novamente e começou conversar com a professora sobre o trabalho dela, a cidade, a política, o tempo. Adélia não cabia em si. Infelizmente a ajudinha chegou rápidamente, pra atrapalhar a conversa. Era um funcionário não médico, com um cinto de utilidades e uma maleta de ferramentas. Adélia não entendeu que era aquela pessoa e não o médico quem iria tirar a lata do dedo dela. Pensou que ele tinha vindo consertar alguma coisa, até ele abrir a maleta e tirar uma tesoura igual a do seu João, mas sem a ferrugem. Ela não poderia correr para o banheiro, chorando. Não na frente deste médico. Olhou para o médico assustada, e ele com aquele sorriso hipnotizador cobrou a confiança que ela havia prometido. Ela não poderia desapontá-lo e entregou sua mão para o faz tudo do hospital, enquanto o médico segurava a sua outra mão, para dar segurança. Ela queria que o procedimento durasse pelo menos umas três horas, mas durou apenas um minuto. Um corte na lateral perto da tampa da lata e outro corte na tampa até o buraco. Uma alargadinha no buraco e pronto, o dedo ficou livre. Um pouco inchado, mas ileso. Adélia fingiu estar aliviada e sorriu para o médico agradecida. Elegantemente ele falou que o mérito era do Sr Horácio (o faz tudo). Adélia agradeceu ao Sr Horácio que guardou a ferramenta na maleta e foi embora. Adélia também teria que ir. Tinha terminado tão rápido! O médico soltou a mão dela e elogiou a sua coragem. Ela ainda perguntou se teria que tomar algum antibiótico, só pra ficar mais tempo com o médico. Muito gentilmente ele falou que não precisava, despediu-se dela e quando chegou à porta, parou indeciso. O coração da Adélia deu um sobressalto: será que ele ia pedir o telefone dela? Ela teria que falar que era casada. Que situação! O médico olhou para ela e perguntou: afinal, por que você colocou o dedo no buraco da lata?

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